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A importância da parceria

By 23 de junho de 2017Sem categoria
Certa vez Tom Jobim escreveu: “Vou te contar, os olhos já não podem ver, coisas que só o coração pode entender, fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho…”. Com todo o respeito pelo maestro, eu acho que ele exagerou um pouquinho na última frase. Nela, ele condiciona a felicidade exclusivamente ao fato de não se estar sozinho. Entretanto, vale lembrar que a recíproca pode ser igualmente verdadeira, ou seja, alguém que irradia felicidade tem mais chance de ter alguém ao lado.

Mas, uma vez posta essa ressalva, vamos dar um crédito ao Tom, e concordar que, quando se tem alguém ao lado, tudo fica mais fácil, mais seguro, mais completo, mais divertido. Só que – e esta condicional é importantíssima – não pode ser qualquer alguém, tem de ser um alguém a quem se possa, sem medo de errar, chamar de companheiro ou companheira.

Companheiro é uma palavra que vem do latim cum panis e refere-se a alguém com quem dividimos o pão. Companheiro é uma pessoa em quem confiamos o suficiente para sentar junto à mesa e compartilhar uma refeição, esse momento que não alimenta apenas o corpo, mas também a alma. O simbolismo de se alimentar com alguém é imenso, pois pressupõe que você está em sintonia com essa pessoa e olha junto com ela para o futuro – afinal, quando nos alimentamos criamos a esperança de continuar vivendo, de não morrer, de termos um amanhã.

Como não nos alimentamos apenas de pão, mas também de ideias, saberes e planos, ter um companheiro significa compartilhar esse conjunto de coisas – tudo o que nutre nosso corpo, nossas emoções, nossos pensamentos e, principalmente, nossos sonhos. Se essa plenitude é possível com a pessoa que está ao seu lado, acredite, ela pode sim, nesse caso, colaborar – e muito – com sua felicidade. E então, parodiando o maestro: enquanto a noite vem nos envolver, é muito bom estar ao lado de um companheiro.

Mas será mesmo que uma parceria é assim tão importante?

Acompanhe esta história: apesar de ser incrivelmente inteligente, John apresentava grande dificuldade para lidar com os fatos do cotidiano, um dos sintomas da esquizofrenia de que era portador. Ele era considerado uma revelação em matemática, havia concluído sua graduação com louvor na Universidade de Princeton e, com 23 anos, chegava ao prestigioso Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) como professor, apesar de continuar desencaixado do mundo real.

Mas no MIT ele conheceu Alicia, uma jovem estudante de física, e então sua vida começou a mudar. Quando, anos depois, recebeu o prêmio Nobel de Ciências Econômicas por seus trabalhos relacionados à Teoria dos Jogos, John subiu ao pódio para seu breve discurso, e ele o dedicou a uma pessoa: à sua companheira Alicia, sem a qual, segundo ele, nenhuma de suas conquistas teria sido possível. Seu gesto foi justo, pois ela lhe havia dado todo o suporte, emocional e prático, liberando assim sua inteligência para ser adequadamente aplicada à ciência. A história de John Nash, suas teorias matemáticas, sua luta contra a esquizofrenia e a relação com sua mulher foram bem retratados no filme Uma Mente Brilhante, com Russell Crowe no papel de Nash. O filme inclui o discurso, que, aliás, é o momento mais emocionante da fita.

John e Alicia Nash não configuram um caso isolado. Representam apenas uma entre milhares de outras histórias, exploradas pelo cinema e pela literatura, que se referem à força da parceria que um casal pode ter. É sim uma história de amor, mas mostra que este não é um assunto restrito ao romance entre duas pessoas. Ele tem um caráter muito maior, em que os rumos de vida delas são influenciados, para o bem ou para o mal. Pessoalmente, acredito fortemente na influência que um companheiro tem na vida de alguém. E digo isso por experiência própria.

Casamentos podem ser com papel ou sem papel, com alguém do outro sexo ou do mesmo, entre pessoas de mesma nacionalidade ou que se criaram em lados opostos do mundo, entre fiéis da mesma ou de outra religião, que têm a mesma cor na pele ou não, que torcem pelo mesmo time ou por times rivais, que têm a mesma idade ou nem são da mesma geração. O que importa não são essas coincidências. O que importa é se são companheiros de verdade.

Nos casamentos que acontecem todos os dias, é possível considerar que estão sendo construídas parcerias de verdade?

Uma parceria é mais que um casamento. Aliás, um pode acontecer sem o outro. Conheço casamentos que não são parcerias e parcerias em que o casamento nem sequer foi cogitado, não está na pauta de prioridades. Em um casamento, considero que haja três possibilidades de parceria. A primeira é quando o casal tem um projeto comum, a segunda é quando um se engaja no projeto do outro e a terceira é quando ambos têm seus projetos próprios, mas um colabora com o projeto do outro. É mais fácil verificar isso no âmbito das carreiras, então vejamos.

Primeiro tipo de parceria: ter um projeto de carreira comum. Isso é maravilhoso, mas é o mais complicado, pois pressupõe mais contato, e, como consequência, maior superfície de atrito. Acontece com os casais que trabalham juntos, o que é mais comum do que se imagina. Vivemos uma época em que os bons empregos não estão caindo das árvores, o que leva as pessoas, especialmente as mais ambiciosas, a empreender seus próprios negócios. Em outras palavras, a criar seus próprios empregos.

E, nesse caso, é comum o casal resolver trabalhar junto, dividindo as tarefas, as responsabilidades e os resultados. O Luiz Felipe e a Gisela são um bom exemplo. Eu os conheci há mais de uma década, quando ainda estavam buscando consolidar sua empresa de cosméticos em Curitiba. Lembro-me de o Luiz Felipe ter-me dito uma vez, com seu jeito brincalhão: “Fazemos tudo em par. Trabalhamos, sonhamos, viajamos, estudamos, brigamos e até dormimos juntos”. Hoje sua empresa tem sucesso nacional e eles continuam fazendo tudo juntos.

Segundo tipo de parceria: engajar-se no projeto do outro. Acaba tendo um efeito parecido com o primeiro tipo, pois o projeto que era de um passa a pertencer a ambos. Foi o caso de Yves e Pierre. O jovem Yves tinha recém-voltado a Paris, após servir o exército na guerra da independência da Argélia, e queria retomar a carreira de estilista, que tinha começado anos antes na casa Christian Dior. Só que agora com seu próprio estilo e com seu nome, então criou a marca YSL, ou Yves Saint Laurent. A ideia, o nome e o talento eram seus, mas ele não teria chegado aos tapetes vermelhos da alta costura mundial se não tivesse contado com seu parceiro, Pierre Bergé. Foi ele que deu o apoio financeiro e a estrutura empresarial, foi responsável pela gestão, pela estratégia e pelo marketing. O projeto era de Yves, mas Pierre embarcou nele e o tornou possível.

A relação afetiva entre ambos durou 15 anos, mas a parceria profissional durou 45, até a morte de St. Laurent, em junho de 2008. De certa forma, Yves se referiu à parceria de um casal quando disse: “Nada é mais belo que um corpo nu. A roupa mais bela que pode vestir uma mulher são os braços do homem que ela ama. Mas, para aquelas que não tiveram a sorte de encontrar essa felicidade, eu estou lá”.

Terceiro tipo de parceria: casais em que um apoia o projeto do outro. Em uma sociedade competitiva, que se constrói pela força do conhecimento, não é incomum o marido e a mulher construírem carreiras brilhantes em áreas diferentes de atividade, mas igualmente exigentes em estudo e preparo. É o caso da Joyce e do Daniel. Ela, dentista conceituada, estudiosa, antenada. Ele, executivo cobiçado pelas empresas de tecnologia, fala vários idiomas, conhece como poucos o mundo high tech e dos negócios que resultam dele. Suas áreas são diferentes; em comum, mesmo, só os gêmeos Pedro e Gustavo, e o projeto para mais um filho. Mas é bonito de ver como um se interessa pela carreira do outro, como estimula, torce, sofre, se orgulha.

Não é importante que ambos torçam pelo mesmo time, mas ambos têm que torcer. Parceiros são assim, estão juntos para dar força um ao outro, para compreender, aconselhar, abraçar, alegrar-se, chorar junto. Companheiros compartilham do mesmo pão – e não importa se o pão é fresco, macio e abundante, ou está duro, passado e é pouco. Companheiros compartilham o que têm: do pão aos sonhos; o presente e o futuro.

Aliás, esse assunto também foi tema da mitologia e da poesia, ou de ambas ao mesmo tempo. Uma das mais belas abordagens é aquela em que um anjo pergunta a Deus por que Ele havia criado os homens com “aquele defeito”.

– Que defeito? – perguntou o criador, com brandura.

– Bem – disse o anjo -, eu reparei que as pessoas só têm uma asa, e não duas, como nós, e sabemos que são necessárias duas para voar. Então parece que eles nasceram defeituosos.

– Acontece, querido anjo – explicou Deus -, que cada homem e cada mulher tem, sim, duas asas, só que uma está consigo e a outra está em outra pessoa. Eu os fiz assim para que eles aprendessem a voar em pares e assim conseguissem chegar mais alto.

– Além disso – continuou o Todo-Poderoso -, dessa maneira eles também aprenderão a respeitar e a cuidar uns dos outros. Qualquer pessoa que magoe outra poderá estar machucando sua outra asa, e assim ficará impedida de voar. Só pelo amor, nunca pelo ódio, se aprenderá a voar pela vida, aproveitando toda a maravilha que ela tem para oferecer.

Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
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Obs. Eu adoro os texto do Eugenio e esse texto é top!

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